5.2.12

ponta do pé

me olha do canto da cama
o verão que vem chegando
aqui pra perto do meu

apartamento com gatos
em todas as esquinas
felpudas do meu

peito melhor eu ir agora
já estou calçando
minhas sapatilhas apertadas

9.11.11

eu pensei em te mandar uma música brega

eu pensei em te mandar uma música brega
pra dizer que tô pensando em você
mas achei melhor ficar na minha
não vamos gastar a saliva dos outros
talvez pensando bem forte
quem sabe eu perturbe seu sono
ou as paredes do seu apartamento
o quadro que eu te dei vai sair voando
seu prédio vai desmoronar no chão
pataplóft, eu pensando em você

7.10.11

das fotografias não tiradas

(4) na mesa de uma lanchonete árabe estão sentadas quatro pessoas. de costas pra mim, dois homens; de frente, duas mulheres. uma delas estica o braço e mostra para um dos homens, que traz no corpo um suspensório verde que parece ter estado sempre lá, o retrato que acabara de tirar dele. de forma que a imagem do rosto do homem e suas costas, também verdes, se exibem ao mesmo tempo para a câmera que não tenho em mãos.

4.7.11

das fotografias não tiradas

(1) um travesti, vestido com uma saia de bailarina multi colorida e um top claro, se equilibra com rara delicadeza no sapato de salto tentando se ver no reflexo do vidro de um restaurante a quilo.

(2) uma menina albina está de pé no metrô. sua roupa é toda colorida, contrastando com a pele e o cabelo preso por tranças e um rabo de cavalo. ela segura, com uma das mãos, a barra metálica do vagão e, com a outra, um bombom de chocolate branco, já sem o papel que antes o envolvia. zoom no rosto: o bombom é exatamente da cor do seu cabelo.

(3) em frente à faixa de pedestres, pai, mãe e quatro filhas esperam alegres o sinal fechar. três delas, trigêmeas de cerca de 17 anos, têm o cabelo comprido preso no alto da cabeça por um rabo de cavalo, vestem havaianas, bermudas jeans do mesmo modelo e blusas de alça coloridas, cada uma de uma cor: rosa, amarelo e laranja. duas delas estão de mãos dadas, exibindo pra si e pra mundo sua proximidade. elas parecem não fazer a mínima ideia de que são pessoas diferentes.

(continua...)

17.6.11

buquê

é fim de tarde e venta em paris
entramos no supermercado
e estamos perdidas entre
os produtos e suas legendas
estrangeiras atrás do jantar
eu estou congelando com
queijos nos braços, você caminha
desde o outro lado ao longo
das fileiras de prateleiras alegre
com uma alcachofra na mão:
noiva em direção ao altar

29.5.11

inverno

catarina toda vez
que sente muita saudade
tira uma fotografia
em branco e preto
da sua janela catarina
cola todas as suas fotos
nas paredes do quarto
pra preencher o espaço
que falta catarina
quando chega a noite
costuma ter calafrios
com o vento que vem
de tanta janela aberta

26.1.11

posto seis

pra minha avó

a avenida nossa senhora de copacabana
quando olha pra mim desse jeito
parece que vai chorar